"A Banda
Chico Buarque
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor"
Quantos de nós paramos para ver a banda passar? Seja cantando o que for, existem aqueles de nós que paramos para vê-la passar, ouvi-la ou sair da frente para dar passagem. Mas existem bandas que não poderíamos parar para ver, na verdade, não poderiamos sequer parar.
Quando as bandas podres dos poderes passam arrastando no seu bloco diminuto, fechado e enclausurado em cordão de impunidade, tocando marchinhas pitorescas e escancarando seu canto por todos os lados, cada um em suas customizadas fantasias (Ternos e Gravatas, e Togas, com dinheiro nas cuecas, nas meias, nas bolsas, nas maletas...), rindo e dançando numa rua otimamente assfaltada com nossos bolsos, pavilhadas com nossas contas pagas, até as não pagas... Paramos e vemos, saimos e damos passagem, ou melhor votamos para que essa banda óconcur possa-posse voltar a passar em seu desfile bianual...
Quantas outras bandas seguem esse ritmo de diferentes formas, umas tocando musicas conservadoras (mas conservar o que mesmo? as proprias verdades como verdade inexorável e imutável); outra com um cordão largo de exclusão, uma banda segregada de tanta segregação impregnada; uma banda disfarçada, milenar, que puxa o carro de apoio na chibata ilibada e pálida do racismo (fala baixo, no Brasil não existe isso. - Será mesmo?)... Ei para para para para para para PARA! Repara se essas ultimas bandas não estão todas em um mesmo bloco? Não conseguimos reparar, ou poucos reparam, pois paramos para vê-las passando...
Nós temos que reparar nas bandas ditas minorias (na verdade são maiorias sem midia suficiente) para quebrarmos o marasmo dessa festa momesca que se dá não no inicio do ano, pois estão de recesso, mas durante o resto do ano; ou paramos e vamos para as ruas fazendo o verdadeiro carnaval brasileiro o de rua, sem corda, sem corja, sem gravata e sem terno... ou ficaremos na janela de LCD ou Plasma ou LED vendo as bandas desfilarem na sua apoteótica alegoria de inatingiveis...
Diferente, mas ainda igual (ainda bem)!!! Gosto demais de suas reflexões sócio-revolucionárias!!!! Sou sua fã!!!
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