TALHOS CACOS RETALHOS



14 de fev. de 2010

A fruta apodrecida de madura, não volta a ser verde

Existe o ditado popular: " não adianta chorar pelo leite derramado". Decorrente deste dito tão popular, tão comum na boca das esquinas e dos botiquins, o arrependimento passou a ser ignorado. Uma pergunta assombra meus sonhos e pesa nos meus olhos acordados. Será que nós seres humanos, nos desumanizamos, mesmo que eu nem saiba direito o que é isso, e passamos a um status de deuses? Será que somos mesmo deuses? Ou animais sem dicernimento e raciocinio?
Pois é assim: nos dizem para não chorarmos o leite fora do copo, escorrendo  como cachoeira ao chão. No menor dos pensamentos me recordo do valor do litro de leite (não é barato, ao menos para mim) R$ 1,89 (um real e oitenta e nove centavos); junto, vem o valor total da cesta básica por volta de R$ 330,00 reais, em média; lembro do valor da passagem de onibus em Salvador 2,20 - NÃO - 2,30 (dois reais e trinta - esqueci que o preço foi aumentado na calada da noite de uma quinta feira para uma sexta, enquanto @s soteropolitan@s estavam embriagados de cervejas profanas, restaurando os calos nos pés das andanças penitências e fés, ou em ressaca de água-de-cheiro do bom fim de sememana de quem tem que dispendiar de R$ 15 a 20 reais a mais por mês em transporte); tudo batido no liquidificador mensal, sem aquele leite que derramou e não foi lamentado, mais o infimo aumento do salário seja ele minimo ou vergonhoso, sem açucar ou adoçante pois pelo preço, pelo aumento da passagem coletiva teve que ser cortado da cesta não tão basica... essa vitamina, meio desnutrida e anemica, tem que descer guela abaixo, sem choro nem vela, pois o leite derramado não merece a lágrima cansada, só um suor a mais diario.
Um argumento menos ao pé da letra vem do amor do ser humano em não assumir suas atitudes. Errei, mas e daí? A vida é curta, vou levantar a cabeça (nariz encostando a ponta na nuvem) e seguir, esquecer e passar por cima. Apenas continuar? O ser humano é dotado da capacidade de dicernimento, de aprendizado, de reflexão? As vezes penso que não, derramei a porra do leite seja por descuido, por ignorancia, por falta de destreza, ou por egoismo, orgulho ou propositalmente, mas se eu não parar, chorar aquele acontecimento, se não brecar esse comportamento já automatizado, o que vai acontecer ali na frente? Quando houver tanto leite derramado que todos estaremos vivendo em botes num maldito rio de leite podre, ou num fetido mar de qualhada?
Nós não nos arrependemos, derramamos o leite e não choramos ele desperdiçado, qual o destino das vacas, elas duram para sempre a fornecer seu leite a nós? Ou a vida é curta demais para se preocupar com isso, vamos seguir inconsequentes, não choramos o leite derramado, não choramos o dinheiro escondido em cuecas, sutiãs e meias, não choramos o não de um vidro subindo na sinaleira, não choramos por nós, como choraremos pelo proximo? Sem choro por um leite derramado aqui, mas um tsunami de lagrimas por um acidente da natureza, assim desentendo tudo, não choramos nossos erros, mas choramos as consequencias deles, e seguimos sem chorar os nossos erros (interessante intrigante inquietante ou acomodante resignante).
Não choramos por quase nada na verdade, não choramos os leites literais derramados, não choramos os leites subjetivos, não choramos porque o tempo não deixa, mas há a deixa do choro por um acontecimento na novela das 20 horas.
P.S.: Pensei que deuses não chorassem...

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